EGO: amigo ou obstáculo ?

Em nosso estado usual de consciência, tendemos a nos identificar com os nossos pensamentos, emoções e comportamento e acreditar que somos o resultado disso. Desde a infância começamos a construir um personagem e seguir um roteiro coerente com os desejos, fantasias e idealizações desse personagem. Aliado a isso, há também um senso de separação e individualismo que da “moral” ao personagem e o faz se sentir “diferenciado” em relação a tudo e a todos. Essa entidade, esse personagem, esse “ser diferenciado”, chamaremos a partir de agora de EGO.

Nascemos neste mundo como resultado de uma casualidade ou, para alguns, um “milagre”, para logo em seguida começarmos a nos perder em meio às influências, crenças, experiências, ideologias, vivências e dogmas, tanto familiares como sociais. A construção do ego começa com um processo psíquico fundamental chamado “IDENTIFICAÇÃO” que nos leva a assimilar crenças, influências, experiências, convenções familiares e sociais, e, como resultado, começamos a nos distanciar do nosso “eu verdadeiro” e esquecer quem realmente somos, quem é a pessoa despida de toda essa parafernália existencial.

Um sinal do começo do despertar é quando percebemos que o estado psicológico e emocional em que nos encontramos usualmente, resultado da identificação com o nosso personagem (ego), é de frequência baixa, pobre, e que existe algo mais poderoso, rico e significativo por trás (ou por dentro) disso tudo. Uma espécie de tesouro ou elo perdido enterrado em algum lugar que não sabemos onde. Alguns confundem essa sensação como um chamado “divino”, uma conexão espiritual com algo maior, no caso, “deus”, quando na verdade o nosso “deus”, o nosso ser divino é a nossa “essência”que tenta se comunicar de todas as formas, mas tem sua voz abafada ou distorcida pelo ego.

 Só a autoconsciência conseguida pela prática sistemática do exercício da auto observação, sendo uma espécie de testemunha de si mesmo (a), além do foco no momento presente, são capazes de interromper a interpretação ilusória que o ego tenta nos induzir a fazer e acreditar, e elevar nossa consciência a um nível muito maior, mais amplo, profundo e verdadeiro a ponto de conseguirmos achar esse “tesouro” ou elo perdido. O ego, portanto, tem pavor de três coisas : da verdade, da autoconsciência e do momento presente e devemos usar essas três armas poderosas para desarmá-lo e enfraquecê-lo e assim resgatarmos o nosso tesouro dando adeus às máscaras, à “agenda” (segundas intenções), às ilusões e mentiras e, principalmente, dando adeus ao SOFRIMENTO TOLO, fruto do auto engano e das mentiras que o ego nos conta e nos faz acreditar.

O que vem a ser efetivamente um “Ego”?

O ego é a figura central da nossa história pessoal que fica se equilibrando entre o passado e o futuro e muito pouco no presente e quando foca neste, o faz de um modo distorcido, fantasioso e idealizado. O componente principal do ego são os “esquemas” que vem a ser um conjunto de memórias emocionais estruturadas a partir do nascimento e consolidadas na puberdade ou até a adolescência, compreendendo vivências, ideias, crenças, emoções e estratégias perceptivas, reativas e de comportamento com as quais a pessoa identifica como “minha história”, papéis fixos inconscientes e identificações coletivas (nacionalidade, religião, posição social, profissional, títulos, etc.). A maioria das pessoas se identifica completamente com esses componentes do ego e, para elas, viver sem eles é impossível, inconcebível e perturbador só de imaginar.

Ao meus clientes costumo fazer um “teste” para medir o grau de identificação egoica. Sugiro a pessoa se imaginar completamente nua ou vestida em um pijama de hospital. Nada de roupas, jóias, enfeites ou penduricalhos. Apenas pés descalços, cabelos desalinhados, sem maquiagem; corpo nu ou vestido de pijama de hospital. Essa pessoa está em um lugar desconhecido em um país longínquo onde ninguém a conhece. Parece outra dimensão. Parece um sonho. Ela abre uma porta e entra numa sala ampla onde se encontram algumas pessoas sentadas ao fundo em uma espécie de tribunal. Essas pessoas a observam entrar na sala. Um desses que está sentado no tribunal, parecendo um juiz, faz a derradeira pergunta: “QUEM É VOCÊ ” ? A regra é que o cliente deva desconsiderar nome, título, posição social e todos os símbolos e papéis. Ele não é ninguém a não ser ele mesmo. Cerca de 99,9% não souberam responder. Ficaram paralisados, confusos, envergonhados e bloqueados sem as muletas, sem os títulos, sem os seus papéis ou falsas identidades. Alguns insistiam em dizer “sou o vice-presidente fulano de tal”, “sou o pai do Gabriel”,”sou um advogado recém-formado” e teve até um que disse “sou gente boa, acredite”.

O ego é moldado pelo passado, determinando sua estrutura e conteúdo. A estrutura do ego é um fator inconsciente que força o indivíduo a fortalecer sua identidade unindo-se a um objeto externo ou algo fora de si mesmo. A autoimagem é uma projeção cujo sentido de orientação é externo. O conteúdo do ego será então a coisa com a qual o indivíduo se identificou (minha casa, meu carro, meu filho, minha inteligência, minha opinião, minha beleza, minha conta bancária, meu blog, meu diploma, minhas medalhas, etc, etc, etc.). Esse conteúdo do ego é moldado pelo ambiente e educação da pessoa, ou seja, pela cultura através da qual a pessoa se tornou um adulto.

A identificação do ego com as coisas (o objeto, o próprio corpo, o modo de pensar) cria a ligação do indivíduo a várias outras coisas. O ego, ou como eu gosto muito de dizer, “o personagem caricato”, experimenta sua existência através da posse de vários “objetos”. A satisfação proporcionada pelo senso de posse é, no entanto, fugaz, explicando o porquê do indivíduo normalmente nunca se sente saciado, satisfeito, impelindo-o na busca de novos objetos. Há uma poderosa motivação por trás desse padrão, uma exigência psicológica de obter mais e mais, um sentimento inconsciente de “ainda não sou ou não tenho o suficiente”, e esse sentimento de insuficiência surgem de um modo compulsivo, neurótico e incontrolável. É um sentimento tão ou mais poderoso para o ego do que a própria ambição em si e o desejo de possuir. Os sentimentos de desconforto, carência, vazio, insatisfação permanente, tédio, inveja, ansiedade, tristeza e estresse são todos em grande parte frutos desse desejo insatisfeito de querer mais e mais. É o ego reclamando e exigindo.

Pensamentos como “isso é meu”, “eu quero”, “eu preciso disso”, “não é o bastante”, pertencem à estrutura do ego. O conteúdo do ego muda com o tempo; ele é substituído por novos conteúdos e desejos, gerando novas carências e crise de abstinência. No entanto, nenhum conteúdo é capaz de satisfazer permanentemente o ego enquanto a sua estrutura permanecer intacta. O indivíduo continua procurando algo diferente, algo que prometa uma maior valorização, satisfação e saciedade, tornando o sentido do eu mais completo e pleno.

Esta estrutura determina as várias funções do ego. Na opinião de Eckhart Tolle (O Poder do Agora- sugiro todos os livros dele) as funções mais importantes são as seguintes:

* O Ego se esforça para proteger-se, sustentar-se e expandir-se;

* O Ego funciona no modo de sobrevivência (auto-preservação).

Uma das estratégias mais importantes do ego para se sustentar e se reforçar é a experiência do “eu estou certo”. Esta é a identificação de uma ideia, posição ou avaliação. Nada da ao ego mais poder do que experimentar a sensação de “estar certo”.

Outra estratégia de auto-reforço favoritas do ego é a reclamação. Queixar-se implica o sentido de “EU tenho direito” ou “EU não admito isso”. Quando um outro ego recusa aceitar que “EU estou certo,” é uma ofensa ao ego queixoso, que, por sua vez, se retroalimenta e reforça ainda mais sua estrutura e identidade.

A afirmação de que o ego funciona em um modo de autopreservação significa que ele sempre luta para permanecer “psicologicamente vivo”, por isso considera outros egos como inimigos, rivais a serem combatidos e superados, algo contra os quais se deva lutar. É desejo do ego estar vivo, forte, estruturado e sempre certo e assim superar o outro, assegurando sua superioridade. Outra consequência desse mecanismo de autopreservação é que o ego nos provoca cegueira parcial ou total na forma de uma autoimagem irreal, idealizada e distorcida. Essa estratégia evita que nós consigamos nos enxergar com objetividade e com isso ele (ego) correr o risco de ser desconstruído e descaracterizado.

O Ego é apenas um componente da personalidade
Se quisermos entender como o ego funciona, não devemos ignorar o fato de que ele é apenas uma pequena parte de nossa personalidade e seu conteúdo vem, como já mencionamos, de nossas percepções sensoriais e memórias (nossa história, vivências, conhecimento e experiência de vida). O ego é a parte do pensar, sentir e agir/reagir. A parte de nosso ego que mostramos ao mundo externo é denominada por Jung como “persona”, a parte da personalidade que é mais atuante. Essa parte do ego é colocada em primeiro plano quando estamos na companhia de outras pessoas. Isso é, de fato, aquilo que conhecemos como “nossas máscaras”.

Grande parte da personalidade é constituída pelo ego inconsciente, denominado por Freud como ego instintivo ou “ID”. É aí que se encontram a maioria dos instintos básicos (autopreservação, sexual transmissor, social) movidos pela força motriz, a nossa energia instintiva, o nosso combustível existencial (libido) e também a parte da personalidade descrita por Jung como “sombra”. A “sombra” é moldada e desenvolvida pela sociedade quase em simultâneo com a nossa personalidade de representação de papéis (persona). As crianças quando desejam atender as expectativas de seus pais e através delas, da sociedade, começam a desenvolver e rebuscar essas máscaras. Rejeitar certos estímulos oferecidos pelo ambiente desencadeia a desaprovação de nossos cuidadores, influenciadores e professores, de modo que a intenção de rejeitar estímulos é suprimida. É assim que nossa “personalidade-sombra” ou ID se desenvolve. Ela existe dentro de nossa personalidade, mas renegada ao nosso inconsciente.

Freud acreditava que o terceiro componente importante de nossa personalidade é o chamado “Superego”. Compreende os valores sociais que a cultura em que nós crescemos encontra importância. No decorrer de um processo longo e complicado, esses valores são incorporados à nossa personalidade e se manifestam como o “eu ideal aos olhos dos outros” (a pessoa que gostaríamos de ser ou de mostrar aos outros). Representa mais uma das inúmeras máscaras que usamos.

Mais de 90% dos mecanismos da personalidade são inconscientes.
Grandes partes do Id, da Persona (ego) e do Superego estão inconscientes. As funções do Ego também são em grande parte inconscientes, portanto, a nossa autoimagem é extremamente distorcida e idealizada. Pensamos que sabemos algo sobre nós quando na realidade pouco ou quase nada conhecemos.

O ego é responsável pela estrutura, é a “coluna vertebral” da personalidade. É função do ego zelar pelo nosso bem-estar psíquico. Essa não é uma pequena tarefa pois somos constantemente bombardeados por expectativas e desejos inconscientes do Id, tentando influenciar nosso comportamento. O Id pode gerar angústia, ansiedade, medo e desconforto ao ego que se utiliza de um arsenal de atitudes inconscientes conhecidas como “mecanismos de defesa” visando aplacar o conflito gerador dessa ansiedade. Um exemplo de um mecanismo de defesa é o da projeção. O ego projeta os desejos e características inaceitáveis ​​vindos do Id para outros (por exemplo, “você diz que eu sou agressivo, mas o agressivo é você” ou então;”você me provocou”). Neste exemplo, a pessoa se sente muito atingida pela crítica e para aplacar o sentimento de culpa, rejeição ou desconstrução, inverte o polo e culpa o acusador pelo comportamento ou resultado gerador da crítica. “Eu errei, mas a culpa não é minha, vocês é que me induziram ao erro”. Os mecanismos de defesa são sofisticados e vários mecanismos podem ser usados ao mesmo tempo de maneira encadeada como a racionalização “não fui culpado porque ..” para logo em seguida vira a projeção; “vocês é que me induziram ao erro. Assim o sentimento de culpa arrefece, uma sensação de bem estar emerge e o ego se mantém íntegro, vivo e fortalecido.

Além do Ego
O Ego não é mau, é simplesmente um mecanismo inconsciente, embora vivo e extremamente atuante. Se um indivíduo é capaz de se observar e observar as funções do ego, ele será capaz de desconstruí-lo e transcendê-lo. Nesse caso, o indivíduo que busca o autoconhecimento reconhecerá que a sua essência sempre esteve lá, mas as funções do ego-identificação com objetos e pensamentos o levou para um outro caminho, o afastou da sua essência, da sua “casa”. O resgate da nossa essência, em termos figurados costumamos dizer que é um “retorno para a casa” de onde nunca deveríamos ter saído. Uma das maneiras de transcender o ego é NÃO REAGIR às constantes mudança de pensamentos e emoções, mas apenas observar e “PERCEBER QUE ESTÁ SE PERCEBENDO” .

A maioria das pessoas usa o termo “consciência”, mas não sabe do que está falando, pois se identifica com o ego socialmente condicionado. Essa identificação é tão forte a ponto dessas pessoas não saberem nem sequer desconfiarem que sua vida é governada por uma mente totalmente controlada, diria escravizada. O resultado é muito sofrimento ou, no máximo, uma “vidinha mais ou menos”. Há um sensação de vazio, uma insatisfação permanente, um estado de não plenitude, mas o ego acaba usando mecanismos de defesa como a racionalização para se convencer de que “viver é assim mesmo”e a pessoa então se conforma.

Aqueles que são capazes de ir além dessa identificação com a mente reconhecem esse estado de estar socialmente condicionado, e também são capazes de deixar esse condicionamento social para trás. Tal pessoa não se identificará com a mente, mas, cada vez mais, com a ESSÊNCIA ou CONSCIÊNCIA no papel de observador ou testemunha por detrás dos pensamentos e reações emocionais. O estado de PRESENÇA, portanto, desarticula, enfraquece e desarma o ego e o descondicionamento e a libertação se darão.

Nos próximos posts relacionados às estruturas de funcionamento do ego, abordaremos os mecanismos de defesa e os ganhos secundários.